quarta-feira, 27 de março de 2013

A aquicultura no Brasil hoje e o papel do pesquisador


Muitos têm apostado no potencial da aquicultura na garantia do suprimento de proteína de boa qualidade, na redução de pobreza, na conservação de espécies ameaçadas de extinção, entre outros. O incentivo à produção aquícola foi até chamada de Revolução Azul, em analogia à Revolução Verde, que prometia aumentar a produtividade da agricultura na década de 50 do século passado.
As estatísticas atuais mostram que houve e ainda há avanços significativos no crescimento do setor: a aquicultura é o ramo da agropecuária que mais cresce no mundo hoje. No entanto, o crescimento da atividade por si só não é suficiente, mas sim seu desenvolvimento, para que seja construída em base sólida para possibilitar a realização do potencial esperado.
No passado, a aquicultura intensiva, em mono cultivo  com altas densidades de estocagem, cultivando espécies exóticas, carnívoras, demonstrou-se ineficiente em se sustentar ao longo do tempo. Como exemplo, vários empreendimentos entraram em falência pela elevada mortalidade causada por doenças no cultivo, já que em mono cultivo  a resiliência do sistema é baixa. Além disso, foi observada redução de estoques de espécies nativas quando exóticas foram introduzidas no ambiente pelo escape de viveiros e tanques de cultivo. A criação de espécies carnívoras também não contribuiu para a preservação de estoques dos oceanos, já que necessita de níveis elevados de proteína bruta em sua dieta, provenientes da pesca predatória.
Outro problema que ocorreu no passado (e ainda ocorre atualmente) é a exportação de riquezas do local em que o empreendimento aquícola é instalado para mercados externos, impedindo o desenvolvimento de comunidades locais. A aquicultura voltada para a exportação explora os recursos naturais para a formação dos produtos aquícolas, mas os negligencia na contabilidade dos custos de produção e na formação dos preços. Portanto, países em desenvolvimento perdem riquezas por venderem seus produtos para países desenvolvidos, que têm maior poder de compra, por não considerá-las nos custos de produção. Estas riquezas poderiam ser aplicadas no local, gerando desenvolvimento. Ainda pode ocorrer importação de mão-de-obra para o empreendimento, o que distancia a aquicultura como atividade socialmente justa.
Os caminhos para se desenvolver a aquicultura com sustentabilidade, a fim de atender aos potenciais nela creditados, é a mudança nos paradigmas impostos no passado. Atualmente, a visão antiga sobre os modelos que deveriam ser seguidos na expansão da aquicultura está sendo substituída por outros valores. Nesse novo conceito, a visão ecossistêmica é preconizada, e seus princípios são: A aquicultura deve ser desenvolvida no contexto das funções e serviços ecossistêmicos (incluindo a biodiversidade) sem degradação além de sua resiliência; a aquicultura deve melhorar o bem-estar humano e a equidade para todos os tomadores de decisão; a aquicultura deve ser desenvolvida no contexto de outros setores, políticas e objetivos.
Portanto, atualmente, o desafio dos pesquisadores da área é o desenvolvimento de tecnologias de cultivo de espécies nativas, e o uso de produtos e subprodutos regionais para a fabricação de insumos da produção, como ingrediente da dieta ou medicamento, por exemplo. Além disso, devem desenvolver sistemas em integração com outras espécies animais ou vegetais, para aumentar a resiliência dos sistemas e possibilitar sua continuidade num amplo horizonte. Outra questão importante é o reconhecimento da ação do meio ambiente no processo produtivo, ou seja, estudos devem ser feitos para aplicar e/ou desenvolver metodologias para a quantificação dos serviços ecossistêmicos e das externalidades nos projetos.
O código de conduta do pesquisador deve ser baseado na ética, refletido na experimentação animal, no ambiente de trabalho e demais atores sociais envolvidos. Além disso, nesse processo, é imprescindível a participação das comunidades locais e a incorporação dos seus saberes. Desse modo, será possível subsidiar a formação de políticas públicas para o setor aquícola sob estruturas sólidas, possibilitando o atendimento às expectativas nela depositadas.
Por Janaina Mitsue Kimpara
Pesquisadora da Embrapa Meio-Norte
janaina.kimpara@cpamn.embrapa.br

terça-feira, 26 de março de 2013

A inevitável mecanização da agricultura


          
       

        O desemprego é um problema crônico do mundo. Nos diversos cantos da terra, existe falta de oportunidade para parcela da população. Mas é só isso? Por que então os empresários reclamam que faltam pessoas para trabalhar? A resposta é a qualificação profissional. Existe uma competição muito grande no mundo globalizado. O bom funcionário pode trabalhar em qualquer empresa ou país do mundo.  Como seu número é restrito, suas oportunidades são maiores. Ele pode escolher o emprego que quiser.
            Na agricultura isso também está muito evidente. As grandes fazendas não privilegiam mais o trabalhador rural que tenha só muita disposição. Não adianta mais ser bom na enxada, debaixo do sol escaldante. O funcionário da empresa rural tem que aprender. Rápido. O dinamismo das operações agrícolas exige especialização. O que se faz hoje nas fazendas é totalmente diferente do que se fazia há 30 anos atrás. Ou 20, ou 10 anos. A evolução é decorrente do avanço tecnológico em diversas áreas.
            Com a revolução verde, década de 1970 em diante, o mundo viu um grande aumento na produção de alimentos. Existia um pacote tecnológico que previa diversas ações conjuntas, como o uso de sementes melhoradas, correção do solo com adubo, uso de agrotóxicos e início da mecanização. Os tratores passaram a ser usados e em alguns países os agricultores começaram a colher a lavoura com colheitadeiras.
            Atualmente, um trator que aplica um corretivo do solo, como adubo ou calcário, possui GPS, ar condicionado, DVD, direção hidráulica e todo conforto para o operador. O sujeito não é mais obrigado a labutar suando sob um sol de 40°. Com a agricultura de precisão, a máquina calcula, inclusive, quanto deve despejar precisamente de adubo. Ou seja, na mesma área, a adubação vai ser feita de acordo com a coordenada geográfica específica. Uma quantidade calculada.
            Um pouco mais de adubo aqui, menos ali. Porém esse tipo de tecnologia ainda é para poucos.  Uma máquina dessas é muito cara. E operá-la pode ser um problema. A eficiência do investimento vai depender muito do operador. Não dá para o produtor gastar só com a máquina, se não investir também em profissionais qualificados.
            Em muitas fazendas, dependendo da época do ano, as operações só são interrompidas devido ao clima. A colheita é feita de dia e de noite, desde que tenha condições favoráveis. Em alguns casos, vai a colheitadeira coletando a safra na frente e um trator plantando a entressafra atrás.
            Operações tradicionais na agricultura que demandam muita mão de obra são vistas como grandes geradores de emprego, como a colheita de cana de açúcar. No entanto, é um trabalho de grande dificuldade manual; além dos efeitos nocivos das queimadas, especialmente próximas aos centros urbanos. No médio prazo, essa operação será também mecanizada. Quando essa realidade vier se aproximando, é fundamental que esses cortadores de cana sejam treinados em outra atividade.
            As quebradeiras de coco babaçu no Maranhão são organizadas em associações e tem boa participação política. Já conquistaram inclusive o direito de extrair o coco nativo, mesmo que presentes em propriedade privada. O processo de retirada da amêndoa, necessária para a fabricação do óleo, é todo manual. Mas é um processo complicado porque o coco é muito duro e a operação não rende tanto quanto se fosse feito por uma máquina. Entretanto, as máquinas existentes no mercado ainda não são tão eficientes para quebrar o coco. Se isso acontecer, o que será dessas associações? Elas terão que se especializar em outras atividades.
            A engenhosidade do homem não tem limite. A tendência principal é evitar trabalhos pesados. Fazer mais com o mínimo esforço físico possível. Em um mundo assim, a solução é usar a cabeça. Quem pensar mais terá mais oportunidades.
Por Paulo Fernando de Melo Jorge Vieira
Pesquisador da Embrapa Meio-Norte
paulo.vieira@cpamn.embrapa.br